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Atividades reforçam o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial
Curso da ETIS provoca reflexão sobre racismo, gênero e cuidado no SUS. Discussões para construir a Política Estadual da Saúde resultará no boletim epidemiológico da saúde da população negra no estado

Curso da ETIS provoca reflexão sobre racismo, gênero e cuidado no SUS. Discussões na SUPVEA para construir a Política Estadual da Saúde resultará no boletim epidemiológico da saúde da população negra no estado 

Uma série de atividades marcou a campanha “21 Dias de Ativismo contra o Racismo”, durante o mês de março, entre elas o curso “Racismo, Gênero e Saúde Pública” promovido pela Escola Formação Técnica em Saúde Enfermeira Izabel dos Santos (ETIS). As oficinas realizadas pela escola da Superintendência de Educação em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) reuniram ao longo do mês profissionais da área e provocaram reflexões sobre racismo, gênero e cuidado no SUS. As discussões para a construção da Política Estadual da Saúde Integral da População Negra (PESIPN) e o lançamento ainda este ano do boletim epidemiológico da saúde da população negra no estado, por meio da  Superintendência de Vigilância Epidemiológica e Ambiental (SUPVEA),  também estão inseridos no foco no Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, celebrado em 21/03.

“Vivemos um cenário de grandes contradições: se por um lado o racismo passou a ser reconhecido de forma oficial por leis e instituições, por outro, a realidade não acompanhou o avanço”, avalia Léa de Carvalho, diretora da ETIS.

O curso teve o intuito de qualificar os profissionais técnicos de Nível Médio da Saúde, além de identificar falhas sistêmicas no atendimento a usuários do SUS, em especial a população negra e outros grupos vulnerabilizados. As aulas abordaram a importância de se promover a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra.

“Lidar com essa questão exige, em primeiro lugar, a aplicação rigorosa da política, que não pode ser apenas uma carta de intenções. Isso passa, por exemplo, pela obrigatoriedade do preenchimento do quesito raça/cor em todos os prontuários e sistemas de informação, permitindo que a gestão identifique onde os gargalos da discriminação ocorrem e possa intervir com metas de equidade e punições para condutas discriminatórias”, diz Léa.

Dividido em três módulos, o curso também mostrou, entre outros aspectos, como o racismo e o sexismo não são apenas problemas sociais, mas determinantes sociais de saúde que afetam principalmente a população negra, em especial as mulheres. Instrutora do curso, a escritora e militante do movimento negro evangélico Márcia Ferreira chamou a atenção para o fato de as mulheres negras sofrerem mais violência obstétrica no sistema público e para a maior probabilidade de morrerem após o parto. 

Segundo ela, o racismo no SUS se traduz em disparidades gritantes no tempo de espera, no acesso a exames complexos e até na quantidade de anestesia oferecida às mulheres pretas, resultando em casos em que recebem menos analgesia e sofrem mais intervenções desnecessárias.  “Anos de racismo deixou a sociedade insensível, resultando na normalização da violência contra corpos pretos”, ressaltou Márcia.

O assessor pedagógico da ETIS Carlos Henrique Ona Veloso, e também instrutor do curso, destacou a importância de mudanças ocorrerem a partir da prática individual. Ele afirma que a discriminação racial, fruto do racismo estrutural, continua muito presente no cotidiano.

“Admitir o problema é um passo importante, mas ainda falta muito para que isso se transforme em igualdade de fato no dia a dia”, afirmou.

A transformação real, no entanto, pode acontecer através da educação permanente e da representatividade. Escolas técnicas de saúde, como a ETIS, têm o papel fundamental de reformular currículos para incluir a saúde da população negra como eixo transversal, treinando os futuros profissionais para reconhecer o racismo como um determinante social de saúde.

Construção da política estadual

Gabrielle Damasceno da Costa, assessora técnica da Subsecretaria de Vigilância e Atenção Primária à Saúde (SUBVAPS), ressalta a importância do debate para a construção da Política Estadual da Saúde Integral da População Negra para evidenciar as iniquidades vivenciadas pela população negra com práticas no SUS que produzem e reproduzem os racismos estrutural, institucional e interpessoal.

“Todos os nossos dados epidemiológicos, no que se refere à taxa de mortalidade, são maiores quando comparados à população branca. Esses são os frutos históricos de uma reparação que nunca aconteceu com a população negra onde a maioria é marginalizada e vive complexas dificuldades para o acesso de qualquer serviço existente”, afirma.

Gabrielle lembrou ter sido fundamental a criação pela SES-RJ do grupo de equidade racial na Superintendência de Vigilância Epidemiológica e Ambiental (SUPVEA), em julho de 2025, para discussão dos indicadores epidemiológicos. O resultado será o lançamento ainda este ano do boletim epidemiológico da saúde da população negra no estado. 

Ela defende também a massificação do letramento racial na gestão pública até a ponta dos serviços de saúde. E para que isso ocorra, o trabalho integrado com a ETIS será intensificado a fim de debater temas como o racismo e a equidade no SUS. 

 

Link de fotos: https://drive.google.com/drive/folders/10H2Ekdaeaww-wabnzD5f0ysI2beUPipu

Crédito das fotos: Mauricio Bazilio/Ascom/SESRJ