Encontro reuniu gestores, profissionais de saúde, pesquisadores e movimentos sociais para discutir diagnóstico precoce, vigilância, combate ao estigma e qualificação do cuidado no estado
Em processo preparatório para a Conferência Nacional para Enfrentamento da Hanseníase, que acontecerá entre os dias 12 e 14 de março, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) realizou o Seminário Estadual sobre o tema, nesta sexta-feira (6/2). No auditório da sede, o evento discutiu o cenário da hanseníase no estado e construir propostas para qualificar as políticas públicas voltadas ao combate à doença.
Representando a secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello, o subsecretário de Vigilância e Atenção Primária à Saúde, Mário Sérgio Ribeiro, destacou a importância de ampliar a visibilidade do tema. “A hanseníase é considerada uma doença negligenciada no país, com pouca visibilidade, e um dos principais objetivos, tanto da conferência quanto deste evento, é justamente trazer esse tema à luz”, afirmou.
O seminário, que também marcou as ações do Janeiro Roxo, mês dedicado às campanhas de enfrentamento da hanseníase no Brasil, permitiu antecipar debates que serão aprofundados na conferência nacional. “Esse evento permite que algumas propostas já sejam discutidas na conferência de março, funcionando como um esboço das demandas e sugestões de técnicos, profissionais acadêmicos, representantes da Sociedade Brasileira de Dermatologia, da Fiocruz e do Ministério da Saúde”, disse.
O subsecretário destacou ainda os investimentos previstos pelo Estado e por parceiros nacionais e internacionais, como a Fundação Sasakawa. "É importante que esses recursos se traduzam em ações concretas e contínuas nos territórios", concluiu.
Na mesa de abertura participaram também: Egon Daxbacher, da Sociedade Brasileira de Dermatologia; Manoel Santos, do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado do Rio de Janeiro (Cosems-RJ); Jurema Brandão, coordenadora-geral de Vigilância da Hanseníase e Doenças em Eliminação do Ministério da Saúde; Roberta Olmo, coordenadora do Ambulatório Souza Araújo, da Fiocruz; e Rosemary Rocha, suplente da Presidência do Conselho Estadual de Saúde.
Diagnóstico precoce, vigilância e integração da rede de saúde
Na sequência, o seminário avançou para o painel “Panorama da hanseníase no Brasil: diagnóstico oportuno e o papel das unidades de referência no enfrentamento da hanseníase”. Além das contribuições de Jurema Brandão, do Ministério da Saúde, e de Cristina Bernardes, da Gerência de Hanseníase da SES-RJ, a superintendente de Atenção Primária à Saúde da SES-RJ, Halene Armada, ressaltou que o enfrentamento da hanseníase vai além da dimensão clínica.
“O objetivo é evidenciar um problema frequentemente esquecido, que envolve não apenas aspectos clínicos, mas também discriminação e preconceito. A falta de conhecimento da população sobre a doença e a dificuldade em buscar serviços de saúde tornam fundamental a realização de eventos como este, que ajudam a iniciar um movimento maior de conscientização”, disse a superintendente.
O debate abordou o comportamento da doença no país, os desafios do diagnóstico precoce e a integração entre a Atenção Primária e os serviços especializados. Representando o Ministério da Saúde, Jurema Brandão destacou o caráter heterogêneo da hanseníase no Brasil e a necessidade de vigilância constante. A ausência de casos, segundo ela, pode estar relacionada à fragilidade das ações de vigilância e rastreamento de contatos. “O ponto central é a sensibilidade do profissional de saúde em considerar que a hanseníase ainda existe. Quando essa possibilidade é pensada precocemente, inclusive na Atenção Primária, aumenta-se a chance de diagnóstico oportuno, evitando sequelas e incapacidades”, afirmou.
Na organização do evento, André Luiz da Silva, gerência de Hanseníase da SES-RJ, ressaltou que o seminário cumpriu um papel estratégico ao reunir diferentes atores do sistema de saúde. Segundo ele, o estado tem intensificado ações como capacitações, campanhas de conscientização e fortalecimento da Atenção Primária, mas o enfrentamento da hanseníase exige articulação permanente com os municípios.
“A hanseníase está diretamente relacionada às desigualdades sociais, ao acesso aos serviços de saúde e ao estigma. Discutir esses temas de forma integrada permite identificar fragilidades, qualificar o cuidado e construir propostas que dialoguem com a realidade dos territórios fluminenses. Vamos, a partir desse debate de hoje, produzir propostas para a Conferência Nacional”, destacou.
Estigma, prevenção de incapacidades e participação dos municípios
O segundo painel do dia, “Incapacidades físicas em hanseníase: como prevenir e cuidar?”, reuniu Ximena Roja, do Ambulatório Souza Araújo da Fiocruz; Sandra Durães, das Faculdades de Ciências Médicas da UFF; Ariane Pires, da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e do Laboratório de Podiatria Clínica da Policlínica Piquet Carneiro; e Deise Bastos, da Gerência de Hanseníase da SES-RJ. As falas abordaram estratégias de prevenção de incapacidades, cuidado integral, reabilitação e a importância do acompanhamento multiprofissional das pessoas acometidas pela doença.
Na sequência, o debate “Estigma e discriminação: qual lente estamos usando?” trouxe reflexões sobre os impactos sociais da hanseníase, com a participação de Paula Brandão, da Faculdade de Enfermagem da Uerj, e do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan); Luana Pimentel, da Ouvidoria da SES-RJ; Brenda Menezes, assistente social do Morhan; e Mayra Guazzi, assistente social da Gerência de Tuberculose da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. O painel destacou como o preconceito ainda influencia o diagnóstico tardio, o abandono do tratamento e o sofrimento social das pessoas atingidas pela hanseníase.
Outro debate foi sobre “Vigilância de contatos: como enfrentar este desafio?”, que contou com Egon Daxbacher, da Sociedade Brasileira de Dermatologia; Edilbert Pelegrine, coordenador do Programa de Hanseníase da Secretaria Municipal de Saúde de Campos dos Goytacazes; e Lia Raquel, enfermeira da Gerência de Hanseníase da SES-RJ. O debate reforçou a vigilância de contatos como estratégia essencial para interromper a cadeia de transmissão e promover o diagnóstico precoce.
A programação incluiu, ainda, a apresentação do Teatro Bacurau, que utilizou a linguagem artística como ferramenta de sensibilização, seguida pelos apontamentos finais e o encerramento do evento.
A participação ativa de profissionais de saúde dos municípios foi um dos destaques do seminário. Para a coordenadora do Programa Municipal de Hanseníase de Magé, Amanda Moreira, o espaço de debate estadual é fundamental visando fortalecer as ações locais. Segundo ela, o município desenvolve atividades frequentes em áreas quilombolas, com eventos de sensibilização e visitas técnicas, e já planeja novas ações na localidade de Bom Gato.
“Embora Magé seja classificado como município de baixa endemicidade, temos registrado um número relevante de casos. O estigma ainda é muito forte e contribui para o diagnóstico tardio, fazendo com que muitos pacientes já cheguem aos serviços com quadros reacionais graves, deformidades e até amputações”, relatou.
A especialista destacou que as ações de conscientização têm sido essenciais para informar a população sobre a existência do programa, o acesso gratuito ao tratamento e a importância de procurar a unidade de saúde ao surgirem manchas ou sinais suspeitos.
Como resultado do seminário, será elaborado um documento-síntese com diretrizes e recomendações construídas coletivamente, que será levado à Conferência Nacional. "A expectativa é que as propostas contribuam para o fortalecimento de políticas públicas alinhadas às orientações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. Esse documento irá reafirmar o compromisso do SUS com o diagnóstico precoce, a redução das desigualdades e o enfrentamento do estigma associado à hanseníase", concluiu o colaborador André Luiz, da Gerência de Hanseníase da SES-RJ.
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