×
Intersetorialidade no território: a experiência do CAPSi Alcântara
Intersetorialidade no território: a experiência do CAPSi Alcântara

Em São Gonçalo, equipe de Saúde Mental articula parcerias para lidar com pandemia de Covid-19, violência urbana e vulnerabilidades sociais

Em meio à pandemia de Covid-19 e às efervescentes e necessárias discussões sobre racismo estrutural no Brasil e, especialmente, no Sistema Único de Saúde (SUS), a ação intersetorial pode fazer a diferença nos territórios. É o que mostra a experiência do Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil Joaquim dos Reis Pereira (CAPSi Alcântara), em São Gonçalo. A equipe de Saúde Mental tem ampliado seu escopo de trabalho, potencializando a capacidade de articulação de ações intersetoriais no território, envolvendo movimentos sociais, ONGs e universidades. A experiência do CAPSi Alcântara será compartilhada no XX Fórum Intersetorial para Ações em Saúde Mental - Álcool e outras Drogas de São Gonçalo, dia 29 de junho, às 14h. O encontro será realizado via Zoom, com o tema a “Atenção à Infância e Adolescência”. Acompanhe a página do CAPSi Alcântara no Facebook e participe do evento.

 

Em São Gonçalo, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) é composta por dois CAPSi, dois Centros de Atenção Psicossocial modalidade II (CAPS II), dois ambulatórios ampliados, dois Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPS ad II e III) e uma enfermaria especializada em Saúde Mental. Localizado na região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, o município abriga aproximadamente 1 milhão de habitantes e é marcado por episódios de violência extrema, que afetam sobretudo a juventude negra. Considerando o contexto de pandemia de Covid-19, violência e vulnerabilidade social, o CAPSi Alcântara vem investindo em parcerias locais, sobretudo com o CAPSi Zé Garoto. Juntas, e em articulação com movimentos sociais, as duas unidades desenvolvem ações no território para o cuidado de crianças, adolescentes, jovens e suas famílias.

 [FOTO1]

A coordenadora técnica do CAPSi Alcântara, Tainara Cardoso, explica que a principal estratégia é a aproximação com movimentos locais relacionados à infância e à juventude, a fim de fortalecer a rede de cuidados e proteção para esse segmento da população no município. “Há grande urgência em articular as iniciativas locais e potencializar um movimento de base. O extermínio da juventude negra tem acontecido de modo latente, sem nos deixar respirar. Temos debatido sobre a importância de trazer a juventude pro cenário de cuidado e, para isso, foi preciso mapear e fazer parcerias com os movimentos sociais de São Gonçalo”, afirma Tainara, que além de atuar no CAPSi Alcântara, está à frente do projeto “Africa em Nós”, que propõe o debate racial nas instituições escolares, junto com outros movimentos que valorizam o protagonismo juvenil.


Estratégias durante a pandemia de Covid-19


Diante da recomendação de distanciamento social, assim como outras unidades do território, o CAPSi Alcântara precisou interromper grupos de apoio, oficinas terapêuticas e o acompanhamento habitual dos usuários, a fim de evitar aglomerações. A unidade permanece atendendo presencialmente casos de atenção à crise e realizando o acolhimento de pessoas que chegam pela primeira vez ao serviço. Além disso, iniciou acompanhamento por telefone e atendimentos on-line por vídeo-chamadas.

“O cuidado à distância ainda é um desafio, pois muitos adolescentes e familiares alteram seus números de telefone com frequência e seus pacotes de internet são limitados. Mesmo com as adversidades tecnológicas, encontramos soluções viáveis, como a criação de uma página no Facebook que conta com a participação assídua dos jovens, dos seus familiares e de outras pessoas que desconheciam o serviço de saúde”, relata Tainara. O espaço virtual reúne conteúdos produzidos pelos jovens atendidos pelo CAPSi Alcântara, como produções sobre a Luta Antimanicomial e contra o abuso e exploração de crianças e adolescentes.

Imagem removida.

Durante a pandemia de Covid-19, lideranças comunitárias e organizações locais se organizaram por territórios do município para ajudar na arrecadação e distribuição de material de higiene e cestas básicas para as famílias mais vulneráveis. “O trabalho é impulsionado pela campanha #NaMinhaFavelaNao, que visa fortalecer organizações comunitárias do território, como Nós por Nós, Isoporzinho da Prevenção, Por Gentileza, África em Nós, Comunidade Viva e outras ações da sociedade civil, como as realizadas pela antropóloga e também articuladora de Rede na Saúde Mental, Arlete Inácio, com olhar voltado para a população em situação de rua e comunidade trans no município”, conta Tainara.

 

O CAPSi Alcântara conta, também, com o apoio de universidades públicas, especialmente o Instituto de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), que tem auxiliado lideranças comunitárias e profissionais de saúde durante a pandemia, ouvindo suas demandas, pensando estratégias conjuntas e orientando a elaboração de projetos para editais de incentivo ao trabalho dos artistas de rua e produtores culturais da cidade. Os professores do Instituto de Psicologia da UFF mantêm iniciativa de escuta, suporte e acolhimento às lideranças locais e profissionais da saúde de São Gonçalo e Niterói, com agendamento pelo telefone (21) 98679-6722.

 

“Também reforçamos a parceria com a ONG Bem TV, que trabalha com comunicação para jovens periféricos no Rio de Janeiro e, durante a pandemia de Covid-19, criou o projeto Jovens Comunicadores, com participantes de 16 a 29 anos, justamente as principais vítimas da violência urbana”, destaca Tainara. Em cada território da cidade, um monitor é responsável por 40 adolescentes e jovens. Os participantes recebem um auxílio mensal de R$ 250 reais e são capacitados e aprendem a identificar fake news, preparam material explicativo sobre o novo coronavírus para a população e se dispõem a orientar e esclarecer dúvidas. “Eles se tornam referências para as pessoas do bairro, que entram em contato por meio de redes e aplicativos de mensagens para obter informações sobre prevenção da Covid-19, ter acesso às cestas básicas e aos auxílios a que têm direito. Aos poucos vamos despertando novas lideranças locais que possam trabalhar com jovens”, conclui Tainara.