Equipe de Atenção Psicossocial da SES destaca que grupos de apoio são relevantes para a saúde mental
A notícia da realização do sonho da paternidade, em agosto de 2018, fez nascer na vida de Humberto Baltar, educador e afroempreendedor, um um questionamento: como trazer o empoderamento racial para a vida de seu filho? Pensando nisso, ele fez uma pesquisa na rede social em busca de outros pais pretos com quem pudesse trocar vivências e a solicitação viralizou. Em um breve diálogo com dois pais, Humberto descobriu que era necessário criar um grupo virtual para promover uma troca mais intensa. E, claro, de forma gratuita.
"Aos poucos, ficou nítido que já éramos muito mais que um grupo de troca de ideias e conversa, mas formávamos uma verdadeira rede de apoio e acolhimento onde o homem preto poderia se sentir seguro pra falar não só das suas angústias, medos e traumas, como também compartilhar suas conquistas, vitórias e momentos descontraídos e alegres em família”, lembra Humberto, fundador do coletivo Pais Pretos Presentes.
De acordo com Daniele Menezes, apoiadora institucional da Equipe de Atenção Psicossocial do Estado do Rio de Janeiro (SES), a Coordenação de Atenção Psicossocial entende e afirma a importância deste tipo de ação, que é voltada para a saúde mental da população negra. E é fundamental que elas aconteçam de forma efetiva. Um dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) é a equidade, por meio do qual se considera que as diferenças precisam ser pensadas a partir de suas singularidades e não de um falso pretexto de igualdade, como se todas as pessoas fossem expostas igualmente ao mesmo tipo de sofrimento.
"Os coletivos têm um papel de suma importância na saúde mental, uma vez que tematizam os atravessamentos, dificuldades e desafios do racismo, como por exemplo, os desafios relacionados à paternidade preta. Pais pretos no exercício da sua paternidade têm a possibilidade de contar com a troca de saberes, encontros, falas e escutas, conseguindo assim auxiliar na construção de lugares e formas de existência por meio dessa troca. Aqui na Coordenação, estamos realizando o Projeto de Qualificação da Rede de Atenção Psicossocial junto às Populações Vulneráveis do Estado do Rio de Janeiro, que contém ações a partir de um plano de integração que inclui saúde da população negra e quilombola".
Para Celso Vergne, responsável pelo Comitê Estadual de Saúde da População Negra, a proposta de coletivos assim é muito importante para uma população que sempre teve que conviver com um projeto de apagamento de suas raízes por meio do ato do embranquecimento. De acordo com Celso, esses grupos funcionam como um processo de autocuidado coletivo. “O racismo institucional demarca, silenciosamente, lugares onde a população negra pode ou não estar. Para lidar com isso, é preciso desconstruir a ideia de "insensibilidade" do homem preto, e talvez seja necessário um acompanhamento terapêutico que ajude neste processo. E estes grupos funcionam como excelente ponto de partida pra gente se permitir sentir. A Saúde Mental tem avançado nessa direção, permitindo que esses temas adentrem os espaços de cuidado, sendo este um dos eixos que a gente tem tentado estimular dentro da SES, a fim de tecer um processo de construção necessário. Muito ainda precisa ser feito, mas, hoje, podemos dizer que caminhamos bastante. Estamos melhorando em reconhecer a nossa humanidade”, acrescenta o profissional.
Erick Olgim, fisioterapeuta e integrante do Coletivo Pais Pretos Presentes, reforça que o diálogo com um profissional pode servir como ferramenta para suprir as lacunas criadas pelo racismo na vida do homem preto e se refletir na forma como ele lida com a família, principalmente os filhos. “Muitos dos nossos desconhecem a importância do cuidado com a saúde mental. Eu fiz um acompanhamento com uma psicóloga e ela me ajudou bastante na forma como eu lido com a família, desde o momento que antecedeu a paternidade. Precisamos entender o contexto onde estamos inseridos e buscar alternativas para combater estigmas e preconceitos que nos marginalizam há séculos".