Paciente de 34 anos sofreu traumatismo cranioencefálico em acidente de trânsito
Os órgãos captados em uma vítima de acidente de moto que teve morte encefálica no dia 17 de outubro podem beneficiar pelo menos 50 pessoas pelo país. O doador tinha 34 anos e sofreu traumatismo cranioencefálico em acidente de moto, sendo levado ao Centro de Trauma do Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT), em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.
A equipe da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos (CIHDOTT) do HEAT recebeu a autorização da família, possibilitando que fossem captados os dois rins, fígado, córneas, ossos, coração e tecidos. Um helicóptero do Corpo de Bombeiros fez o transporte dos órgãos a partir do hospital até as unidades responsáveis pelos transplantes.
"Este tipo de doação não é tão comum, pois a captação óssea é muito delicada e tem critérios mais específicos e rigorosos, além da idade do doador, como o histórico de saúde e outros fatores", explica Sidney Pacheco, coordenador do Programa Estadual de Transplantes do Rio de Janeiro (PET-RJ).
Rins, fígado, córneas e coração já foram transplantados com sucesso. Tecidos e órgãos ficam armazenados em um banco do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO) e podem ser usados meses depois de serem captados.
PET completou dez anos de êxitos
As doações de órgãos e tecidos no estado são realizadas pelo Programa Estadual de Transplantes do Rio de Janeiro (PET-RJ), que foi responsável pela renovação de mais de 19 mil vidas nos seus dez anos de atuação. O coordenador do Programa, Sidney Pacheco, celebra a chance de beneficiar tantas pessoas através do serviço: “Para o PET é motivo de orgulho verificar que nossos esforços têm proporcionado resultados superiores ao esperado e que se traduzem na melhoria de vida de inúmeras pessoas. Este tipo de captação pode beneficiar, de imediato, sete vidas e, a longo prazo, melhorar a qualidade de vida de cerca de 50 pessoas”.
De janeiro a setembro de 2020 foram feitos 559 transplantes de órgãos sólidos (fígado, rim, coração, pâncreas e pulmão) pelo PET-RJ. Entre janeiro e março deste ano, ocorreu o melhor primeiro trimestre da história do programa, com 254 transplantes de órgãos sólidos. A marca supera em quase 54% o mesmo período do ano passado e colocou o estado no 3º lugar em número absoluto de doadores no ranking do Sistema Nacional de Transplantes (SNT). No segundo trimestre (abril a junho), um total de 163 órgãos sólidos foram captados, colocando o estado em 5º lugar no mesmo ranking.
A queda no segundo trimestre se deve à pandemia, que começou a afetar o processo de captação e transplante. O potencial doador em morte encefálica com diagnóstico de Covid-19 ou com histórico de contato nos últimos 15 dias com alguém infectado tem excluída a possibilidade de doação de órgãos.
Apesar da pandemia, em comparação com o ano passado, houve aumento na captação de órgãos, graças ao trabalho de capacitação dos profissionais das Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes nas unidades hospitalares. No primeiro semestre de 2019, 378 transplantes de órgãos sólidos foram realizados através do PET-RJ. O número subiu para 417 transplantes no mesmo período de 2020.
Nasce o Jardim do Doador
Com o propósito de tornar o processo menos doloroso e buscar simbologias que ajudem as famílias a superar a circunstância de dor, o HEAT transformou o difícil momento da perda de um ente querido em homenagem. Assim foi criado o Jardim do Doador, espaço onde são plantadas flores que representam as vidas de quem ajudou a salvar outras vidas.
“Devido ao alto índice de autorizações, criamos na área interna do hospital o Jardim do Doador. O espaço foi preparado e ganhou infraestrutura. Nele são plantados jasmins que simbolizam a vida de cada paciente. O jardim tem um valor sentimental e emocional enorme”, destaca o diretor da unidade, Raphael Riodades.
O psicólogo Luiz Antônio da Silva, membro da CIHDOTT da unidade, é o idealizador do jardim e cuida do espaço desde a criação, em 2014. Ele explica que todas as famílias de doadores na unidade aceitaram participar da proposta. O reflexo positivo vai além dos familiares, alcançando até mesmo funcionários, que usam o espaço em momentos de descanso.
“As famílias chegam desesperadas e saem sorrindo, refletindo bem-estar e agradecimento pela oportunidade de homenagear a pessoa querida que foi doadora. Os funcionários do hospital também utilizam o espaço. Ali pegam sol, conversam, trocam tristezas e alegrias. Virou um lugar de paz”, conta.
Para o assessor de humanização estadual, Rafael Fornerolli, a experiência merece ser reproduzida: “É uma excelente ideia que pretendemos levar para outra unidade, pois trata-se de uma ação humanizadora, que sensibiliza as famílias a fazer novas doações e mostra que as pessoas doadoras continuam vivendo de outra forma”.
Seja um doador
A doação em vida só pode ser realizada por pessoas próximas, através de mandado judicial, ou parentes de primeiro grau, conforme a legislação brasileira. A doação após morte encefálica pode ser realizada somente mediante autorização da família, por isso a importância de informar familiares sobre a intenção de ser um doador. O estado tem um programa, o Doe+Vida, em que é possível se cadastrar. A informação fica no sistema do PET, facilitando a permissão da família do potencial doador.