Em pandemia, cuidados são ainda mais necessários
O Dia Internacional dos Portadores de Alergia Crônica, comemorado no último dia 3, foi criado pela Organização Mundial de Saúde e serve como alerta para a necessidade de tratamento e cuidados que precisam ser mantidos durante todo o ano, especialmente em momento de pandemia. Embora o inverno seja conhecido como a estação em que as alergias se agravam, o verão também inspira cautela. Afinal, a estação traz fatores que podem desencadear esse tipo de reação.
Maior exposição aos raios solares, aumento do uso de ar-condicionado, picadas de insetos – cuja proliferação aumenta nessa época de calor e chuvas frequentes – e oscilações de temperatura podem levar a quadros de reação alérgica com reflexos sobre a pele e o sistema respiratório, entre outras complicações.
Alergias são uma resposta imunológica “exagerada” a alguma substância estranha ao organismo e podem se manifestar de forma leve ou grave. A Associação Brasileira de Alergia e Imunologia estima que, no Brasil, 30% da população tenha algum tipo de alergia. As crianças são maioria: 20%. É na infância que a maior parte das alergias começam a se manifestar. Cerca de 8% das crianças com até dois anos de idade e 2% dos adultos convivem com algum tipo de alergia alimentar, por exemplo. A tendência é maior quando há histórico familiar.
A dermatite atópica, caracterizada por sinais como pele seca e áspera, causa muita coceira e afeta até 20% das crianças e cerca de 3% dos adultos. Mariana Santino, dermatologista do Instituto Estadual de Dermatologia Sanitária (IEDS), atende pacientes com dermatite atópica na instituição. “Aqui nós temos este paciente o ano inteiro. No verão, recomendamos que continuem a hidratar a pele. A hidratação é o mais importante, além de evitar banhos demorados e de água quente e só usar sabonete uma vez ao dia, priorizando a área genital e de dobra cutânea”, indica.
É um tipo de alergia mais comum em crianças, mas pode surgir na fase adulta. 60% dos casos ocorrem no primeiro ano de vida. A doença assume forma leve em 80% das crianças acometidas e em 70% dos casos há melhora gradual até o final da infância.
Higiene e hidratação devem ser aliadas
Metade das pessoas com dermatite atópica das formas mais severas sofre com ansiedade ou depressão. 55% apresentam problemas para dormir, muitos por causa da coceira, que pode interferir nas atividades diárias e até no desenvolvimento escolar. “Está muito relacionada ao estresse, então a situação que estamos vivendo na pandemia pode piorar. A lavagem frequente das mãos e o uso do álcool em gel contribuem para a remoção da camada de lipídios, protetora da pele, deixando-a mais exposta. Como a higiene é prioridade neste momento, o ideal é hidratar ainda mais a pele”, afirma a médica.
O tratamento pode ser multidisciplinar e envolver pediatras, dermatologistas, psicólogos, nutricionistas e imunologistas, incluindo vacinas. As lesões na pele podem levar o alérgico a conviver com o preconceito e com a falsa ideia de que é transmissível.
Não há cura, mas se pode atenuar com cuidados simples. As primeiras horas da manhã ou o entardecer são os horários ideais para os banhos de sol, sempre com protetor solar. Após a piscina ou praia, deve-se tirar a roupa molhada e tomar um banho rápido, aplicando creme hidratante em seguida. E priorizar tecidos leves e naturais, como algodão, aos tecidos sintéticos, que atrapalham a respiração e transpiração da pele.
Há ainda pessoas alérgicas a medicamentos. No Brasil, acredita-se que a maior parte dessas alergias seja a analgésicos e anti-inflamatórios, estimada em 0,5% a 1,0% da população adulta. Nesses casos, é importante ter atenção a qualquer alteração após o uso de medicações e buscar o pronto-socorro ao sinal de qualquer anomalia, como inchaço, manchas e dificuldade de respirar, sintomas de choque anafilático, a mais grave das reações, que demanda socorro urgente. Pode ocorrer também como reação a alimentos, venenos de insetos e ao látex (derivados da borracha).
Alergias respiratórias
As alergias podem atacar a respiração. É o caso da asma, que atinge de 10% a 25% da população brasileira e gera pelo menos 400 mil internações hospitalares e 2.000 óbitos por ano no Brasil. Por dia, três pessoas morrem de asma no país. Muitas vezes as alergias estão associadas. 80% dos asmáticos têm rinite, outro tipo de alergia muito comum, que afeta em média 26% das crianças, 30% dos adolescentes e 22% dos pacientes adultos, segundo o estudo ISAAC (International Study of Asthma and Allergies in Childhood).
A asma é causada por um processo inflamatório crônico, que aumenta a reatividade dos brônquios – tubos que levam ar aos pulmões. Assim, qualquer processo alérgico ou irritante pode levar ao espasmo (contração) dos brônquios – a crise de asma. Surgem sintomas como chiado no peito (sibilos), falta de ar e sensação de peso no peito. Também é chamada de bronquite alérgica ou bronquite asmática.
No Estado do Rio de Janeiro, entre 2019 e setembro de 2020, o percentual de atendimentos ambulatoriais a asmáticos foi maior na faixa etária de 30 a 69 anos, faixa em que se concentram as maiores taxas de mortalidade pelas doenças crônicas não transmissíveis, incluindo doenças respiratórias crônicas, em que a asma e a rinite estão incluídas. 46% dos óbitos por asma ocorreram nesta faixa etária. 50%, acima de 70 anos. Do total de óbitos por doenças respiratórias crônicas no ano de 2019, 2.278, 9,7% tiveram como causa a asma.
A asma e o coronavírus
A médica Debora Fontenelle, assessora técnica da Superintendência de Vigilância Epidemiológica e Ambiental da Secretaria de Estado de Saúde, alerta para a relação entre a asma e a Covid-19. “Os portadores de asma, principalmente os que fazem uso regular de medicamentos, apresentam maior risco de desenvolver complicações relacionadas à infecção pelo coronavírus. Além de seguirem as medidas já amplamente divulgadas, como uso de máscara e distanciamento social, devem manter o tratamento preconizado pelo médico de forma regular”, orienta a profissional, que acrescenta: “O tratamento usualmente preconizado com corticoide via inalatória deve ser mantido mesmo com risco de Covid. Além de não agravar a infecção pelo coronavírus, colabora no controle da asma”.
Dos 647 casos de Covid-19 notificados no estado tendo a asma como comorbidade, 94,5% precisaram de internação, das quais 40% necessitaram do serviço em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). 172 pacientes com este perfil vieram a óbito.
O quadro usual de sintomas apresentado pelo paciente asmático deve ser avaliado com exame físico e busca por outros sinais, como febre, sintomas de um resfriado comum e perda de olfato, a fim de afastar a hipótese de Covid-19. “Caso você seja portador de asma e tenha sintomas da Covid, não deixe de informar seu diagnóstico e, após alta do acompanhamento da Covid, procure especialista para reavaliação”, recomenda a médica.
Foto: Mauricio Bazilio