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No Dia Internacional da Mulher, profissionais da saúde contam como a força feminina fez a diferença no socorro às vítimas de Petrópolis
No Dia Internacional da Mulher, profissionais da saúde contam como a força feminina fez a diferença no socorro às vítimas de Petrópolis

Servidoras da Secretaria de Estado de Saúde estiveram em locais remotos levando serviços essenciais à população

 

Elas enfrentaram chuva forte e lama, venceram barreiras e obstáculos, e trabalharam no limite para que as vítimas do temporal que atingiu Petrópolis, em 15 de fevereiro, recebessem a assistência de que precisavam. São profissionais da Subsecretaria de Vigilância e Atenção Primária à Saúde (SVAPS), médicas, enfermeiras e técnicas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), além de gestoras que deixaram suas rotinas e famílias para apoiar a força-tarefa da Secretaria de Estado de Saúde (SES) no município. Hoje, no Dia Internacional da Mulher, nossas guerreiras lembram momentos de um trabalho que marcou suas vidas.

– A primeira dificuldade foi o deslocamento até a cidade, pois as vias estavam interditadas. Atuamos em locais de difícil acesso, com risco de novos desabamentos, com a população desesperada atrás de notícias de parentes, amigos e pessoas da família desaparecidas. Foi uma situação muito complexa ver a tristeza no olhar das pessoas. Sabíamos que éramos o socorro essencial naquele momento – conta Camila Rodrigues da Silva, 34 anos, uma das socorristas que percorreram a cidade de motolância.

Dirigindo o veículo, Camila – a primeira mulher a compor a equipe de motolâncias do Samu – conseguiu levar atendimento a locais de difícil acesso para ambulâncias e outros veículos.

– A motolância foi imprescindível nessa missão. Havia muitos lugares onde só a moto conseguia chegar para prestar socorro e levar suprimentos básicos. Fiquei impactada com tudo o que presenciei. Lembro de um senhor que havia perdido cinco pessoas da família. Ainda assim estava ali, ajudando a quem buscava notícias sobre desaparecidos. Nesse tipo de cenário refletimos muito sobre nossas vidas – contou.

Aos 38 anos, Ediglauce Schenck, enfermeira socorrista do Samu, também pilotou uma motolância por becos estreitos, íngremes e cheios de lama.

– Tive que enfrentar o medo, pois chegávamos em pontos onde havia lama na altura da moto e tínhamos que passar por pistas escorregadias e estreitas, com fios elétricos que não sabíamos se estavam ainda ligados à rede de energia e árvores tombadas em meio aos fios. Tivemos muita ajuda dos motoboys e moradores, que subiam, desciam e nos direcionavam a determinados pontos. Andar de moto na lama com fios expostos no chão irregular foi extremamente difícil. Trabalhamos à noite e na chuva, levando alimentos, água e medicamentos, entre outros insumos para famílias isoladas – disse Ediglauce, acrescentando ao seu depoimento um relato emocionado – Tenho em minha memória a visão das pessoas chorando e se abraçando, as doações chegando de diversos lugares e todos se unindo para fazer cordões de apoio à distribuição. Foi uma experiência que levarei para toda a vida – conclui.

No Samu, as mulheres atuaram nas motolâncias, nas Unidades de Suporte Avançado (USA) e nas Unidades de Suporte Intermediário (USI) do serviço. Ao todo, 12 profissionais integraram a equipe que atuou na operação do Samu: três médicas, seis enfermeiras e três técnicas de enfermagem, que atenderam vítimas de trauma, crises de hipertensão, escoriações e vítimas de mal súbito, entre outras. A técnica de enfermagem Estela Rutledge, de 35 anos, também integrou a equipe das motolâncias. Mãe de um casal de gêmeos de 4 anos de idade, Guilherme e Letícia, ela passou dez dias em Petrópolis, longe dos pequenos. A lembrança mais difícil foi o trabalho no Morro da Oficina, um dos locais com maior concentração de buscas.

– O maior desafio é presenciar o sofrimento, em uma proporção muito grande. As vítimas perderam pessoas e bens. Encontramos pacientes que tinham problemas anteriores que se agravaram e uma cidade colapsada. Cidadãos foram removidos das áreas de risco, mas outros ficaram isolados. Era um ambiente inseguro em todos os sentidos. A fonte de coragem foi o olhar de gratidão das pessoas ao nos ver chegar. Além da esperança e da generosidade da população, nos oferecendo água e comida. Saímos de lá pessoas diferentes, tanto profissional quanto pessoalmente – comenta Estela, que auxiliou na coordenação da operação, na organização das viaturas e equipes, no contato com outros órgãos, na assistência às áreas afetadas mais remotas e no atendimento realizado em abrigos.

 

Liderança feminina

A maior parte da equipe da SVAPS, que atuou nas ações de resposta ao desastre de Petrópolis, é constituída de mulheres. A enfermeira de saúde pública Silvia Carvalho, de 51 anos, superintendente de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde da Secretaria, conta o que presenciou:

– No dia a dia, vimos que todas elas abriram mão de estar cuidando de suas famílias, muitas, inclusive, com filhos pequenos, para se colocar a serviço da SES.

Com 29 anos de profissão, 20 deles dedicados à Vigilância do estado, Silvia trabalhou em 2011 na Região Serrana como técnica. Em 2022, retornou coordenando as ações de Vigilância.

– Episódios como este requerem técnica e controle emocional, uma vez que a equipe local de forma direta ou indireta foi abalada. Em Petrópolis não foi diferente. Há necessidade de apoiar as ações sem tirar a autonomia técnica local, pois eles conhecem o território. Participei ativamente durante o período de mobilização do gabinete de crise, onde as decisões são tomadas de forma tripartite, pois há representantes das três esferas de governo – esclarece.

 

Fotos e vídeo: 
https://drive.google.com/drive/folders/1zIFOqPTwRa0USpLTv1igKdxyd8gWjotU?usp=sharing