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Equipes do Programa Estadual de Transplantes e do Corpo de Bombeiros enfrentaram chuva e alagamento para transportar órgão
Equipes do Programa Estadual de Transplantes e do Corpo de Bombeiros enfrentaram chuva e alagamento para transportar órgão

Paciente que recebeu rim passa bem e diz que vai poder abraçar e cuidar dos filhos

 

Em meio ao temporal que atingiu a cidade na noite da última sexta-feira (01/04), uma equipe do Programa Estadual de Transplantes, da Secretaria de Estado de Saúde (SES), protagonizou uma história com final feliz. De um lado, Priscila Faria Santos, de 38 anos, aguardava por um transplante de rim, órgão que poria fim a uma insuficiência renal aguda e à angústia de sessões de hemodiálise que já duravam dois anos. Do outro, equipes do PET e do 11o Grupamento do Corpo de Bombeiros Militar tentavam enfrentar o cenário caótico das ruas alagadas pela enchente para cumprir a missão de transportar o órgão ao seu destino final.

- Cheguei a achar que não íamos conseguir. Tive muito medo. Mas depois que eu soube que o rim tinha chegado ao hospital, me tranquilizei. Agora vou conseguir viver. A primeira coisa que eu vou fazer quando eu estiver em casa é abraçar muito os meus filhos - desabafa Priscila, mâe de cinco filhos.

Por volta das 17h, a enfermeira Jacqueline Baptista e o motorista Rômulo Fonseca dos Santos saíram da sede do PET, na Gávea, com destino ao Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca, onde Priscila estava internada. Já chovia. Na altura do Rio Comprido, o temporal se intensificou. O nível da água subiu rapidamente, o trânsito ficou caótico e eles não conseguiram avançar. Rômulo, então, foi obrigado a subir com o carro na calçada, porque a água já estava no nível da porta.

- Nesse momento, eu tive medo de não chegar a tempo - relatou a enfermeira do PET, que acionou a central do programa.

Após comunicação da equipe do PET, que narrava a dificuldade para chegar à unidade em que seria feito o transplante, a nefrologista Patrícia Finni, que participaria do procedimento e é major do Corpo de Bombeiros, teve a ideia de pedir ajuda ao grupamento de Vila Isabel.

- A equipe enfrentou muitas dificuldades e fez um esforço enorme para cumprir com essa missão tão importante. Graças à atuação deles, a paciente foi operada por volta das 20h e passa bem - afirma Patrícia.

Esforço e empenho não faltaram. Para chegar à Tijuca e resgatar o órgão que mudaria a vida de Priscila, o sargento bombeiro André Moura precisou descer da caminhonete da corporação e abrir caminho a pé, sob chuva forte.

- Chovia muito, as ruas estavam alagadas, a sirene da nossa viatura não seria suficiente para abrir passagem. Desci do veículo e fui sinalizando. Disse a vários motoristas que precisávamos transportar um órgão e as pessoas nos ajudaram, subindo nas calçadas, em garagens, deixando o caminho livre para que passássemos - contou Moura.

Duas quadras antes de chegar ao carro do PET, estacionado em uma calçada na Avenida Heitor Beltrão, em frente ao Teatro Ziembinski, na Tijuca, o sargento Moura e Roza Pinto, que dirigia o veículo, perceberam que seria impossível seguir com a caminhonete. E Moura decidiu ir andando até o local, enfrentando as ruas alagadas para pegar a caixa térmica com o rim.

- Na volta, eu e o motorista (do PET) nos revezamos para levar o cooler onde estava o órgão até o veículo da corporação. Foi fundamental a ajuda dele. Havia água e até cabo de energia no chão. Fui auxiliando, mostrando por onde deveríamos passar - relata o sargento.

Emocionado, o motorista do PET diz que não pensou duas vezes para sair do carro e enfrentar as ruas alagadas para ajudar a levar o órgão até o veículo dos Bombeiros:

- Desci do carro na hora. Precisávamos chegar ao hospital rapidamente. Não dava tempo de esperar a chuva passar. Ele já tinha feito o percurso e foi me guiando, apontando os trechos onde eu podia passar. Na verdade, na hora, eu não pensei no peso do cooler, na água da chuva, nos riscos, em nada. Só em levar o órgão até a pessoa que precisava dele - contou Rômulo Fonseca dos Santos.

Criado em 2010, o Programa Estadual de Transplantes já renovou a vida de cerca de 7 mil pessoas por meio de transplantes de órgãos sólidos (categoria que engloba os transplantes de fígado, pulmão, intestino, rim, pâncreas e coração) e recuperou a saúde de inúmeros pacientes com transplantes de ossos, ligamentos e pele. De janeiro a março deste ano, já foram feitas 79 doações. No mesmo período do ano passado foram 39.

- A doação de órgãos salva vidas. E a gente precisa que as famílias dos doadores saibam do desejo de doar. Nós precisamos avisar aos nossos familiares que somos doadores. Avise a sua família que você é um doador - alerta Luciana Peixoto, enfermeira e diretora administrativa do PET, acrescentando: - O Programa Estadual de Transplantes não trabalha sozinho. Há uma rede de apoio muito grande. A participação dos Bombeiros foi fundamental. Lidamos com o fator ambiental não esperado aqui no município do Rio de Janeiro.