Projeto apresenta novo mundo a mais de 300 presas do Rio através da leitura
Deu na mídia! O sol que entra pelas janelas no alto da sala ilumina o rosto das mulheres sentadas no carpete, de blusa branca e sem chinelos. No chão, as biografias de Michele Obama, Angela Davis, Conceição Evaristo e Elza Soares dão dicas do assunto que o projeto Histórias Além Muros tratou na tarde da última quarta-feira.
Sentadas em círculo, 14 presas na Penitenciária Talavera Bruce, em Bangu, na Zona Oeste do Rio, seguram um pedaço de papel e uma caneta. Cada uma tentou, em poucas linhas, escrever parte de sua história. Depois, leram a autobiografia em voz alta e revelaram do que gostam e desgostam no mundo: “Quase não existe coisa de que não gosto, porém, uma me fere a alma: a maldade do ser humano”, diz uma delas. “Mesmo estando em situação carcerária, sou feliz. Pois aqui aprendi o verdadeiro valor da vida”, conta outra.
O ambiente criado por iniciativa da Sapoti Projetos Culturais reúne uma estante de livros que ocupa uma parede inteira e almofadas espalhadas pelo chão. O espaço é dedicado à leitura e a reflexões que as palavras proporcionam. Cada encontro tem um tema e, para apresentar os livros, as educadoras explicam as características dos gêneros, discutem os autores e realizam atividades relacionadas aos livros indicados. Os encontros ocorrem três vezes por semana, duas vezes por dia, desde 2021.
— Carolina Maria de Jesus diz no livro dela que a favela é o quarto do despejo. Entendo que a cadeia também é um tipo de quarto de despejo da sociedade. Mas agradeço a Deus pela vida de vocês que enxergaram que, no meio desse lixo que o mundo nos considera, é possível ser reciclada e transformada — afirma Manoelina Brum, de 51 anos, referindo-se ao histórico livro “Quarto de Despejo”, da autora mineira, uma das primeiras escritoras a tratar da realidade da favela em primeira pessoa (e com absoluto lugar de fala).
*Jornal O Globo e Extra