ATÉ ONDE VAI O PLANEJAMENTO TERRITORIAL? (SEGUNDA PARTE)

Existem acontecimentos na biografia de nações, tal como na biografia de pessoas, que são reconhecidos e tornados inesquecíveis mesmo por quem não foi sua testemunha ocular: assim se deu com a construção de Brasília, que parece tão nova em seu vigor quanto épica em sua ousadia, mais de meio século depois.

A decisão de mudar a capital para o interior quase deserto pode e deve ser examinada pelo que conseguiu realizar efetivamente ou não, mas sem dúvida empolgou um povo em busca de identidade e reconhecimento. Filmes e revistas daquele final dos anos 1950 registram a esperança dos candangos que iam atrás de trabalho e de um novo começo no Planalto Central, como se estabeleceram e se tornaram parte de algo maior – aquele algo muito, muito grande, mas coberto até a borda de coisas pequenas, como Julian Marias nos contou no artigo anterior: sermos pequenos – no sentido físico, não no moral - diante da vastidão do mundo não nos torna menores, se somos nós que o fazemos vasto.

Justificada como necessária para ocupar um espaço pouco conhecido, mas muito favorável ao nosso desenvolvimento, ela começou com uma cidade inteira esboçada no papel, pensada dentro do que havia de mais recente e, àquela época, apreciado em matéria de traçado urbano. Mas não ficou restrita ao desenho, nem se contentou em ser apenas ilha de aço, alvenaria e vidro em meio ao vazio, como um monumento ao nosso prodígio técnico, ou um cenário mais espaçoso para os escritórios do governo federal: ela deveria ser a base de uma região a serviço do país, com parte ativa na produção econômica, na redistribuição física de um povo até então concentrado no litoral (tal como caranguejos, segundo uma imagem muito divulgada naqueles dias) e no estabelecimento de uma imagem positiva de nossa nacionalidade, bem como de nosso alcance internacional, pois Brasília tornou-se referência de originalidade além de nossas fronteiras, tal como suas contemporâneas, a Bossa Nova e a conquista da Copa do Mundo na Suécia.

E ela não é o único exemplo brasileiro de como o espaço, quando humanizado, se torna território. Quase duas décadas antes, e em meio à Segunda Guerra Mundial, o Estado do Rio de Janeiro oferecia suporte físico e humano para a primeira experiência em grande escala de planejamento setorial de nossa indústria metalúrgica, com a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, incluindo também o planejamento territorial, pois foi criada uma nova cidade, a leste do município de Barra Mansa, e tornada ela própria um novo município, para apoio àquele empreendimento: Volta Redonda.

Tal como a mãe que acolhe e protege sua filha, a cidade mais antiga dividiu sua infraestrutura e sua vida urbana (comércio, diversão, rede de transportes, etc.) com a comunidade iniciante, e esta cresceu até juntar-se com aquela, formando um binômio urbano. E este par vem desde então crescendo em direção à Barra do Piraí, a Porto Real e a Resende, ao longo do rio Paraíba do Sul: uma conurbação (cidades diferentes com tecido urbano contínuo) demandando um planejamento que reequilibre as consequências de ritmos desiguais de expansão e retração, algo que, não sendo desconhecido em cada setor da atividade econômica, traz desequilíbrio ao território. Carecendo este de planejamento orientador, sofrem as duas dimensões: a do setor produtivo, e a do urbano e regional.

Eis uma resposta possível, mas não a única, quando nos perguntam até onde vai o planejamento territorial: até onde são estabelecidos recortes no espaço – o local dos assentamentos humanos – e no tempo – pois os seres humanos constroem uma história, feita de decisões -, e tais recortes substituem o vazio pelo lugar, centro de humanidade em vez de desolação. Mas esta resposta, se permite imaginar algo tão grande quanto nossos sonhos, não nos disse onde tais sonhos começam, ou de onde veio o planejamento. Diremos por hora que a grandeza de nosso estado vem também do singular em seu quotidiano, do individual que fará parte de uma existência comum em sociedade e a tornará maior e mais forte.

Começa em quem conseguiu se mudar para a casa desejada, e a arruma a seu gosto, sem esquecer de quem com ele ou ela mora. Continua no gerente da loja que quer atrair clientes e se esmera para criar um local inspirador de confiança para as trocas de mercado. Passa pelo dono do galpão industrial não longe dali, que deve se informar sobre reclamações de fumaça ou barulho. E, de pessoa em pessoa dando um rosto coletivo ao território, alcança o administrador público que, através do planejamento, traz o “grande” do urbano e do regional ao “pequeno” do ambiente imediato em que viceja cada cidadão: em seu quarto, no ponto de ônibus ou no banco da escola.

O planejamento setorial precisa de planejamento urbano e regional, que doravante apresentaremos como planejamento territorial, atendendo a vida econômica e a vida social, para ganho de ambas. E, com seu olhar de técnico com sensibilidade, o planejador tomará parte deste esforço de todos para fazer o Estado do Rio de Janeiro de nossos sonhos.