O machismo não é prejudicial apenas para as mulheres, ele também afeta, de diversas formas, os próprios homens, inclusive no cuidado com a saúde. Para discutir esse tema, o Seminário Nacional de Masculinidades, promovido nesta quinta-feira (9) pela Secretaria de Estado da Mulher, em parceria com o Instituto Mapear, trouxe um debate sobre os desafios da saúde do homem.
Participaram da mesa o coordenador nacional de Saúde do Homem, Celmário Brandão; o coordenador estadual de Saúde do Homem do Rio de Janeiro, Giovani Dimas; e o psicólogo e facilitador de grupos reflexivos do Tribunal de Justiça do Pará, Manoel de Christo.
Embora sejam os mais afetados por doenças cardiovasculares (responsáveis por 52,4% das mortes, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde), por câncer de pulmão (duas vezes mais risco que as mulheres) e por infecções sexualmente transmissíveis (73,6% dos novos casos de HIV no país são entre homens, de acordo com o Ministério da Saúde), eles representaram apenas 28% dos atendimentos realizados pelo Rio Imagem Baixada no último ano. Além disso, uma pesquisa do Instituto Lado a Lado pela Vida mostrou que 88% dos homens afirmam procurar o médico apenas uma vez por ano.
Nos últimos dez anos, os casos de HIV entre jovens de 15 a 29 anos aumentaram 168% no Brasil. Apesar do crescimento, os comportamentos de risco persistem. Pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia revelou que 80% dos homens dizem conhecer as ISTs, mas não se consideram vulneráveis. Apenas 11% reconhecem o risco real de contrair doenças em relações sexuais desprotegidas. Outro levantamento da entidade mostrou que, entre adolescentes de 12 a 18 anos, 15% já iniciaram a vida sexual, destes, 44% não usaram preservativo na primeira relação e 35% não usam ou usam raramente. Ainda, 38,5% dos meninos afirmaram não saber sequer como colocar o preservativo corretamente.
De acordo com os painelistas, dados como esses evidenciam o desafio de fazer com que os homens reconheçam a importância do cuidado integral com a saúde, algo dificultado por uma cultura adoecedora.
Enquanto as meninas costumam ser levadas pela mãe ao ginecologista na adolescência, os meninos acabam ficando à margem, procurando atendimento apenas em situações de emergência. Para Giovani Dimas, isso gera um sentimento de não pertencimento ao sistema de saúde. Segundo ele, os serviços têm investido em estratégias de acolhimento para reverter esse quadro.
- Com acolhimento qualificado, o homem passa a se sentir pertencente ao espaço da unidade de saúde. Quando ele se reconhece nesse ambiente e compreende o valor do cuidado preventivo, tende a adotar práticas mais saudáveis e equilibradas. Isso reflete em sua vida produtiva, em suas relações e no modo como se posiciona na sociedade. Um homem que cuida da própria saúde contribui também para o bem-estar das pessoas ao seu redor - afirmou Dimas.
Celmário Brandão compartilhou da mesma visão, destacando o acolhimento como eixo central para o desenvolvimento de ações de cuidado direto, prevenção e promoção da saúde, com impacto positivo em toda a sociedade.
- A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem se ancora em cinco eixos: acesso e acolhimento na atenção primária; paternidade e cuidado; prevenção de violências e acidentes; doenças prevalentes na população masculina; e saúde sexual e reprodutiva. O primeiro eixo, o do acolhimento, é fundamental, porque, sem ele, os demais não se sustentam. O homem precisa se sentir parte do sistema de saúde, não apenas como paciente eventual, mas como sujeito de cuidado contínuo - destacou.
Para Manoel de Christo, cuidar da saúde vai além do aspecto físico e envolve também o equilíbrio emocional. Ele ressaltou que muitos homens têm dificuldade em pedir ou aceitar ajuda, reflexo de uma masculinidade adoecedora.
- Os homens se cuidam muito pouco. Fomos socializados para agir e sentir de forma violenta, para não demonstrar afeto ou fragilidade. Isso nos torna vetores de violência: contra os outros, contra as mulheres e contra nós mesmos. Falar em saúde mental é falar sobre reconstruir nossa subjetividade, repensar a forma como aprendemos a ser homens. Admitir a fragilidade é o primeiro passo para construir novas formas de relação e de cuidado - afirmou.