Durante o lançamento do programa Nós+Seguras, a mesa “Apresentação e reflexões do programa” reuniu especialistas, gestoras públicas e representantes da sociedade civil para discutir os pilares da iniciativa, suas estratégias de implementação e os caminhos para a construção de escolas mais seguras e acolhedoras para meninas e mulheres em todo o estado do Rio de Janeiro.
Com mediação da superintendente de Enfrentamento às Violências da Secretaria de Estado da Mulher, Giulia Luz, a mesa contou com a participação da CEO da organização Serenas, Amanda Sadalla; da professora na faculdade de Pedagogia da UFRJ, Beatriz Gomes; da coordenadora do Instituto MAPEAR, Luiza Tanuri; da chefe do UNICEF Brasil, Flávia Antunes; e da superintendente de Atenção Primária da Secretaria de Estado de Saúde, Halene Armada.
- Estamos lado a lado na construção de um presente e de um futuro de dignidade e livre de violência para todo o estado. E isso exige compromisso, formação e, sobretudo, escuta - destacou a superintendente de Enfrentamento às Violências, Giulia Luz, na abertura da mesa.
Durante o encontro, as convidadas compartilharam experiências e reflexões sobre a importância da articulação entre diferentes setores, como educação, saúde e assistência social para o enfrentamento das violências. Também foram abordadas as ações previstas pelo programa, como a capacitação de profissionais da rede pública, a criação de metodologias acessíveis de prevenção e o fortalecimento das redes locais de proteção. Também está prevista a disponibilização de materiais pedagógicos, garantindo que a prevenção esteja presente de forma contínua no cotidiano escolar.
As falas evidenciaram ainda a necessidade de olhar para as violências a partir de uma perspectiva interseccional, que considere as desigualdades de gênero, raça e classe. O programa reconhece que meninas negras são as principais vítimas de violência sexual e feminicídio no estado e propõe transformar as escolas em espaços que não apenas acolham, mas também combatam as raízes do racismo e do sexismo presentes no cotidiano.
A CEO da organização Serenas, Amanda Sadalla, reforçou o papel da escola como espaço estratégico na prevenção das violências e no enfrentamento das desigualdades de gênero e raça.
- A escola é um lugar onde há violência contra meninas e mulheres, mas também pode ser um lugar para mudar essa realidade. A violência sexual afeta majoritariamente meninas negras com menos de 13 anos e a maior parte das vítimas de feminicídio também são mulheres negras, e isso não é coincidência, é fruto de um processo de colonização - afirmou.
Amanda também alertou para o uso da tecnologia como facilitador de violências, especialmente contra meninas. Dados da organização humanitária Plan International apontam que 44% das adolescentes entrevistadas relataram ter visto ou recebido conteúdos sexuais indesejados pela internet, enquanto 33% afirmaram sentir tristeza, ansiedade, preocupação ou depressão após essas experiências. Esses impactos afetam diretamente o desempenho acadêmico e a autoestima das meninas, podendo desencadear quadros mais graves, como depressão.
A professora da Faculdade de Educação da UFRJ, Beatriz, trouxe reflexões sobre os limites e possibilidades da educação como ferramenta de transformação.
- Eu cresci ouvindo da minha mãe que eu deveria estudar, porque o estudo é a única coisa que não vão poder tirar de você, e eu não estou falando de meritocracia. Eu sei que a educação pode ser transformadora, mas eu também sei que ela pode ser tendenciosa e pode nos levar para caminhos muito perigosos - afirmou.
Beatriz destacou a importância da Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, e lembrou que o reconhecimento dessa pauta muitas vezes passa primeiro por uma dimensão estética. No entanto, enfatizou que a questão vai além da representatividade, é preciso que as demandas da população negra sejam ouvidas e atendidas de forma atenta e contínua, e na importância de efetivar políticas públicas a curto, médio e longo prazo.
A representante do UNICEF Brasil no Rio de Janeiro, Flávia Antunes, apresentou dados do estudo “Panorama da Violência Letal e Sexual”, lançado em 2024 pela UNICEF em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o levantamento, entre 2021 e 2023, 1.251 crianças e adolescentes de 0 a 19 anos foram mortas de forma violenta no estado do Rio de Janeiro, e 11.963 meninas e meninos foram vítimas de violência sexual, sendo a maioria meninas.
- Como a gente interrompe esse ciclo? O UNICEF vem atuando em parceria com os governos na prevenção e nas respostas às violências com o objetivo de quebrar esse ciclo de violência, exclusão e racismo estrutural. A presença de três secretarias tão potentes reunidas nesse programa é um marco importante - afirmou Flávia.
O programa responde a um cenário alarmante. Somente em 2023, mais de 3 mil meninas de até 17 anos foram vítimas de estupro ou importunação sexual no estado do Rio de Janeiro, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). A maioria desses crimes ocorre em ambientes que deveriam ser de proteção.
Com ações coordenadas, o Nós+Seguras pretende transformar essa realidade a partir de políticas públicas, com foco na escuta qualificada, na formação e na proteção desde a infância.