Na nossa casa não: grupos aborígenes pedem proteção de local escolhido como sede das olimpíadas

Na nossa casa não: grupos aborígenes pedem proteção de local escolhido como sede das olimpíadas
Na nossa casa não: grupos aborígenes pedem proteção de local escolhido como sede das olimpíadas

Parque Victória foi escolhido como local que deve receber estádio olímpico em 2032

Os povos Yagara e Magandjin, representados pela Yagara Magandjin Aboriginal Corporation (YMAC), protocolaram nesta terça-feira (05/08) um pedido formal ao governo federal australiano para garantir a proteção permanente de Victoria Park.

A área, conhecida por eles como Barrambin, onde está planejada a construção do estádio principal para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Brisbane 2032.

A solicitação, feita sob a Seção 10 da Lei de Proteção do Patrimônio Aborígene e dos Habitantes das Ilhas do Estreito de Torres, busca classificar o parque como uma “área aborígine significativa”, preservando sua rica herança cultural, ameaçada por um projeto de A$3,7 bilhões que inclui um estádio de 63 mil lugares e um centro aquático de 25 mil assentos.

“Barrambin é uma terra viva, que possui relações sagradas, antigas e significativas dentro de nossos sistemas de patrimônio cultural”, afirmou a anciã Yagarabul Gaja Kerry Charlton, porta-voz da YMAC.

“Foi um choque total quando o primeiro-ministro divulgou os planos para o estádio [...]. Achei que o parque era seguro. Agora o governo quer destruí-lo. Estamos muito preocupados com a existência de árvores antigas, artefatos e ecossistemas muito importantes ali. Pode haver vestígios ancestrais. Permanecemos firmes em nossa responsabilidade de protegê-la.”

A YMAC, junto à campanha Save Victoria Park (SVP), destacou que o parque, um dos sítios indígenas mais importantes de Brisbane, guarda milhares de anos de história, incluindo locais de festivais, casamentos, funerais e comércio aborígine.

O projeto, anunciado em março pelo premiê de Queensland, David Crisafulli, contraria promessas pré-eleitorais de que Victoria Park seria preservado.

Em junho, o governo estadual aprovou uma legislação que isenta as obras olímpicas de leis de planejamento urbano e da Lei de Patrimônio Cultural Aborígine, gerando críticas de ambientalistas e indígenas.

“É uma perda cultural e ambiental profunda e irreversível, enquanto os organizadores continuam promovendo os Jogos de 2032 como os primeiros com um Plano de Ação para a Reconciliação. É simplesmente espantoso”, disse Sue Bremner, porta-voz do SVP. O presidente do comitê organizador, Andrew Liveris, afirmou à Reuters que objeções serão ouvidas, mas defendeu a legislação para cumprir o cronograma.

A campanha SVP alertou que a construção sacrificará grande parte da área verde e centenas de árvores maduras, enquanto Charlton destacou que o impacto vai além do ambiental: “Este campo de golfe [que existia no local] não mudou a topografia. As cristas onde os povos das Primeiras Nações acampavam por milhares de anos ainda estão lá. Isso não será o caso se o estádio for construído.”

O prefeito de Brisbane, Adrian Schrinner, defendeu o projeto, afirmando que “há grande apoio” e que “o governo está determinado a realizá-lo”.

Até o momento, o comitê organizador e o gabinete do vice-premiê Jarrod Bleijie, responsável pelas obras, não comentaram o pedido. A decisão cabe ao governo federal, mas ativistas temem que as obras avancem antes de uma resolução, já que o processo legal pode levar anos.

 

Reportagem Enzo Anselmo.