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Bibliotecas Parque revelam talentos em Manguinhos e na Rocinha
17/07/2012 - 10:27h - Atualizado em 17/07/2012 - 10:27h
» Julia de Brito
Artistas locais encontram refúgio criativo nos espaços culturais do Governo do Estado
Escritores e poetas locais do complexo de Manguinhos e da comunidade da Rocinha encontraram nas bibliotecas parque, instaladas nas duas localidades, a chance de ampliar perspectivas artísticas e garantir maior visibilidade para seus talentos. Os espaços de cultura, conhecimento e entretenimento, inaugurados em 2010 e junho deste ano, respectivamente, são considerados por eles ambientes transformadores.
É o caso do fiscal da Comlurb e escritor, Haroldo César de Castro Silva, de 49 anos, que define a descoberta da biblioteca de Manguinhos como sendo uma ‘nova página’ em sua vida. Morador do Engenho da Rainha, o fiscal, autor e também compositor de sambas, não esquece o dia em que entrou pela primeira vez na biblioteca. Por causa do trabalho como fiscal de um grupo de garis, Haroldo foi designado a conhecer melhor os arredores de Manguinhos. Área de sua atuação profissional, o complexo de comunidades tornou-se um lugar repleto de perspectivas para o quase cinquentão, que antes de frequentar o equipamento estadual já havia lançado por conta própria o livro “Garimpando Composições”, sobre a história de um gari compositor. Tempos depois, em junho deste ano, Haroldo fez o lançamento de sua segunda obra intitulada “Vida de Gari”, na biblioteca parque. Agora, suas publicações já fazem parte do acervo do espaço.
- A biblioteca me deu outro horizonte. Foi ela que me deu o incentivo para continuar, através dela, eu conheci várias outras pessoas ligadas à cultura e à arte, os projetos de oficinas e de cursos abriram também novas perspectivas para mim. Muito do que aprendi aqui já coloquei em prática como, por exemplo, a oficina de cordel. No meu segundo livro, chamado Vida de Gari, utilizei este estilo em alguns trechos do livro. Estou fazendo oficina de teatro, vou aprender a escrever peças. Por isso tudo acho que a biblioteca é outra página na minha vida, uma página muito feliz - contou.
Rede de contatos e divulgação de material artístico
Nascida e criada em João Goulart, uma das comunidades que integram o Complexo de Manguinhos, Maura Santiago, de 45 anos, encontrou na biblioteca parque da região o seu ganha pão como produtora cultural e a oportunidade de desenvolver seu talento como poetisa. Morando atualmente no entorno do complexo, em Higienópolis, a ex-professora de geografia, já publicou textos em revistas da biblioteca e participa todo o primeiro sábado do mês do sarau de poesia do espaço, que congrega artistas locais e convidados.
- Quando olho para trás, há 20 anos, tinha que sair daqui para ir numa biblioteca melhor no centro do Rio. Se naquela época eu já pudesse frequentar um aparelho público como este, minha formação seria muito maior. Escrevo poesias desde o ensino médio, aqui fiz uma rede de contatos com outros poetas. O sarau poético incorpora grafitti, hip hop, entre outras artes. Esta troca é muito importante, estamos organizando agora uma revista de poesia. Há vários talentos aqui. São talentos e são moradores da comunidade. Conto uns dez poetas que escrevem muito e alguns foram selecionados para a Flupp, Festival Literário das UPPs.
Papel transformador para artistas e as gerações futuras
Com a autodenominação de poeta vira-lata, o baiano Joilson Pinheiro, de 46 anos, que veio para o Rio em 99 e desde 2001 é morador da Rocinha, retira da realidade da comunidade muito de sua inspiração. Sobrevivendo como garçom, o poeta e escritor de romances, que já lançou quatro livros (todos fazem parte do acervo da biblioteca) e está prestes a lançar o quinto, obra intitulada Quero, também considera o espaço de conhecimento e convivência, inaugurado em junho deste ano, uma grande conquista para escritores locais e gerações futuras. Agitador cultural na comunidade, ele é um dos responsáveis pela realização de saraus poéticos na biblioteca.
- A biblioteca me faz poder reunir pessoas, trazer amigos, gente de fora, e o sarau poético tem a possibilidade de revelar talentos. Gosto de morar aqui, quero ver melhorias, e os moradores crescendo e se desenvolvendo. Acredito que a maior mudança não é tanto para mim que sou escritor, mas principalmente para esta turma de crianças e adolescentes. A importância desta biblioteca para estas cabecinhas é muito grande.
Lançando seu primeiro livro de poesias, Eliana Senna, 44, já tem vários textos guardados para novas publicações. Nascida e criada na comunidade da Rocinha, ela frequenta a biblioteca parque desde a sua inauguração e foi impulsionada por colegas a começar a escrever. Formada em letras pela Estácio de Sá e graduada em LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, após muitos anos de trabalho na área administrativa, Eliana pretende ingressar no mercado de publicações infanto-juvenis. A novata considera o espaço cultural e de convivência a sua segunda casa.
- Esta é a minha segunda casa. Aqui posso pensar, escrever. Tenho já 53 contos prontos e quero ano que vem lançar outro livro. Mas desejo me aprofundar mesmo na literatura infanto-juvenil e pretendo escrever para surdos. Isso aqui é um refúgio, um lugar mágico, é o novo. As crianças vêm para cá fascinadas, elas criam um mundo aqui dentro.