Pesquisa reúne cientistas de três países e muda o entendimento sobre conservação das maiores serpentes peçonhentas do Brasil
Uma reportagem recente trouxe novamente à tona um resultado que vem repercutindo entre pesquisadores desde 2024. Liderado pelo biólogo Breno Hamdan, do Instituto Vital Brazil, o estudo, fruto de um esforço de cooperação transdisciplinar que reuniu pesquisadores brasileiros, norte-americanos e alemães, revisou a classificação das surucucus e demonstrou que as populações da Amazônia e da Mata Atlântica não pertencem à mesma espécie. Entre os autores estão Sandro L. Bonatto, Dennis Rödder, Victor Corrêa Seixas, Rogério Mercês Ferreira Santos, Diego José Santana, Larissa Gonçalves Machado, Jessica Matos Kleiz-Ferreira, Marco A. de Freitas, Rodrigo Castellari Gonzalez, Thabata Cavalcante, Moisés Barbosa de Souza, Cristiane Barros Régis, Daniel Silva Fernandes, Hugo Fernandes-Ferreira e Russolina Benedeta Zingali.
A mudança encerra uma discussão antiga. Desde o século XIX, quando foram descritas separadamente, essas serpentes passaram por diferentes interpretações científicas. Em determinados momentos, foram consideradas espécies distintas; em outros, reunidas sob o mesmo nome, como subespécies ou variações regionais. A falta de dados mais amplos, especialmente genéticos, manteve essa indefinição por décadas.
O trabalho conduzido pelo grupo do Instituto Vital Brazil partiu justamente dessa lacuna. Em vez de se apoiar em um único critério, os pesquisadores cruzaram informações de diferentes frentes: DNA, características físicas, hábitos ecológicos e composição da peçonha. A convergência desses dados levou à mesma conclusão: tratam-se de duas espécies, agora novamente reconhecidas como Lachesis muta e Lachesis rhombeata.
As diferenças não são apenas geográficas. A surucucu amazônica tende a atingir maiores comprimentos e apresenta variações no número de escamas e nos padrões corporais. Já a espécie da Mata Atlântica possui proporções ligeiramente menores e traços próprios, além de viver em um ambiente bastante distinto. A análise do veneno também revelou composições diferentes, dado que amplia o interesse sobre essas populações para além da taxonomia e tem implicações potenciais para a produção de soros e estudos biomédicos.
Ao separar oficialmente essas linhagens, o estudo abre caminho para análises mais específicas sobre cada uma delas, com impactos diretos em estratégias de conservação. Isso se reflete na forma como esses animais passam a ser observados em campo, monitorados e incluídos em levantamentos ambientais. No caso da Mata Atlântica, por exemplo, há registros de desaparecimento em algumas áreas, como no estado do Rio de Janeiro, o que coloca a espécie em uma situação mais delicada do que se imaginava quando todas eram tratadas como uma só.
As surucucus, conhecidas também como pico-de-jaca, bico-de-jaca ou malha-de-fogo, seguem cercadas por imagens contraditórias. São animais de grande porte, discretos, associados tanto ao medo quanto à curiosidade. Vivem em áreas florestais mais preservadas, têm hábitos predominantemente noturnos e um comportamento reprodutivo incomum entre víboras brasileiras: botam ovos e permanecem próximas ao ninho.
Ao revisitar uma questão clássica com novas ferramentas, o estudo do Instituto Vital Brazil reposiciona essas serpentes dentro da própria ciência brasileira.